Alcatrazes, no litoral de São Paulo, abriga uma intrigante presença de cactos em meio à rica Mata Atlântica. O arquipélago, isolado há milhares de anos, é lar de quatro espécies de cactáceas: Coleocephalocereus fluminensis, Cereus hildmannianus, Pereskia aculeata e Rhipsalis grandiflora. A história geológica e climática da região, marcada por transformações significativas, explica essa coexistência peculiar. Durante o último período glacial, o nível do mar baixou drasticamente, ligando Alcatrazes ao continente. Essa conexão permitiu a migração de flora que hoje se adapta às condições distintas dos afloramentos rochosos, áreas áridas dentro da floresta, favorecendo a sobrevivência de plantas como cactos, bromélias e orquídeas. Thayná Mello, bióloga do ICMBio Alcatrazes, destaca que, embora inseridos na Mata Atlântica, “são áreas bastante áridas também”. Esse isolamento também influencia a biodiversidade do arquipélago. Com a separação do continente, o fluxo gênico entre populações foi reduzido, potencialmente levando ao surgimento de novas espécies. Pesquisas buscam desvendar se as plantas de Alcatrazes apresentam diferenças genéticas em relação às suas contrapartes continentais, contribuindo para o entendimento da evolução insular. Além disso, o projeto apoiado pela FAPESP investiga a história genética de três espécies de cactáceas locais, analisando como a oscilação do nível do mar afetou sua diversidade. Outro fator interessante é o papel das cactáceas na ecologia local. Embora ainda pouco estudadas, essas plantas podem estar relacionadas à fauna do arquipélago, possivelmente servindo como recursos para polinizadores e dispersores de sementes, como abelhas e morcegos. Esse cenário complexo, onde o isolamento e as condições ambientais criam um “isolamento duplo”, abre caminho para futuras pesquisas sobre a biodiversidade única de Alcatrazes.
Fonte: g1 Brasil







