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Realismo ingênuo: por que divergências eleitorais geram conflitos

Psicologia social explica como percepções pessoais influenciam debates políticos

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Por que quem vota diferente parece não enxergar o óbvio? Entenda o 'realismo ingênuo'

Durante debates eleitorais, é comum duas pessoas ouvirem as mesmas informações e chegarem a conclusões opostas. Esse fenômeno, conhecido como realismo ingênuo, é estudado pela psicologia social para entender por que divergências de opinião podem se transformar em conflitos pessoais durante períodos eleitorais. Desenvolvido por Lee Ross nos anos 1990, o conceito descreve a tendência humana de acreditar que nossa percepção é objetiva e que, se os outros fossem racionais e bem informados, pensariam da mesma forma.Quando essas percepções não coincidem, muitas vezes a explicação é que o outro está desinformado ou foi manipulado. Porém, essa avaliação envolve também emoções e experiências pessoais. Christian Dunker, psicanalista e professor da USP, ressalta que nossa percepção do mundo é mediada por fantasias, ilusões e memórias, o que significa que nossa interpretação dos fatos vai além das informações recebidas.Impacto emocional no pensamentoDunker explica que nossas convicções são moldadas não apenas pela lógica, mas também por uma dimensão emocional. Encontramos conforto em ideias familiares e temos resistência a mudar de opinião, já que isso pode ameaçar a segurança emocional. “Elas são ameaças ao que a gente deseja para o mundo”, diz Dunker, referindo-se às opiniões contrárias.Nas eleições, essas dinâmicas se intensificam, pois as escolhas políticas refletem não apenas propostas, mas também desejos e valores pessoais. Quando uma posição política se torna parte da identidade de alguém, a discordância é vista como uma ameaça pessoal, levando a julgamentos morais.O fenômeno foi observado em um estudo de 2020 na PNAS, que analisou eleitores de Trump e Clinton. Os pesquisadores descobriram que cada grupo tendia a se perceber como mais racional e bem informado, enquanto via os oponentes como desinformados.Influência das redes sociaisAs redes sociais agravam o cenário, promovendo um ambiente onde opiniões são constantemente expostas e mal-entendidos são comuns. As plataformas incentivam conteúdos que geram engajamento, o que pode aumentar a hostilidade e dificultar o diálogo. Segundo Dunker, a realidade frustrante e a pressão emocional podem nos tornar mais suscetíveis ao realismo ingênuo.Reconhecer o realismo ingênuo em nós mesmos é desafiador, já que envolve questionar nossas certezas. Dunker sugere que admitir nossas incertezas e compreender as experiências alheias pode facilitar o diálogo. Assim, antes de julgar o outro como incapaz de ver o óbvio, é importante considerar que ele pode pensar o mesmo sobre nós.

Fonte: g1 Política

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